31 outubro, 2010

O pensamento foge de pensar

Quando tento pensar que nunca mais o vai ver, o meu pensamento não dura mais do que um ciclo respiratório.

16 outubro, 2010

Cheia de vazio

Quando se fala em morte, pensamos na pessoa que faleceu procurando saber as circunstâncias (de forma mais ou menos mórbida), logo depois
na família próxima, na mais distante, nos amigos, em quem já perdemos e os audazes na sua própria finitude.
Pouco ou nada se ouve falar em relação ao processo que uma namorada (que na teoria nem família é) tem que passar quando morre um dos progenitores do namorado; sobretudo quando ela tem os seus vivos e fica aterrorizada com a ideia de um dia ter que passar pelo mesmo e que passa a ficar incomodada quando diz "O meu pai hoje disse/fez ...".
Apesar de não saber nem querer imaginar o que o namorado poderá estar a sentir, há uma necessidade imperial de estar presente para tentar compreender, assumindo o compromisso de estar disponível para o ouvir.
A parte inicial pode parecer crua ou egoísta mas resulta da tentativa de testar/reforçar a segurança (possível = a existente) da presença dos seus pais na sua vida. Penso que se trata de uma resposta condicionada à inerência de se ser humano (segundo Maslow e a sua célebre Teoria das Necessidades, temos na base da hierarquia as necessidades fisiológicas, seguidas pela necessidade de segurança).
Sem questionar (o agir impera), a prioridade é ajudar o outro a identificar, reconhecer e gerir os seus sentimentos numa contenção silênciosa e infelizmente finita/limitada (faço tão pouco ... fiz tão pouco). Paralelamente, nas viagens de carro para casa ou na tentativa de adormecer, é necessário encontrar uma forma que assegure - O que fazer aos sentimentos que imergem em mim e emergem de mim - enquanto me sinto diluída num marasmo de emoções ... os teus, os vossos (família em luto), os nossos, os meus, os hipotéticos meus e os meus antecipatórios.
O dele partiu e o que eu posso fazer com os meus ...? São interrogações ou reticências? Num instante, tão rápido quanto a morte súbita, as exclamações, certezas, determinações, garantias, ficaram reduzidas a cinzas que se espalham de forma aleatória e com um andamento do tipo prestissimo.
Nesta minha vida de um tempo sem fim, saltei do passado para o futuro e recorro a uma parte da letra de uma das músicas - Unusual Way (soundtrack do filme Nine) mais tocadas no meu carro nos últimos meses que já me fazia lembrar o meu pai (já estive para a postar anteriormente) e que agora garantidamente assumo que é ele que é recordado. E é por ele que já chorava quando a ouvia.
In a very unusual way,
I want to cry.
Something inside me goes weak,
Something inside me surrenders,
And you're the reason why,
You're the reason why.
You don't know what you do to me.
You don't have a clue.
You can't tell what is like to be me
Looking at you.
It scares me so that I can hardly speak.
In a very unusual way,
I owe what I am to you.
Though at times
It appears I won't stay,
I never go.
Special to me in my life,
Since the first day that I met you.
How could I ever forget you.
Once you had touch my soul.
In a very unusual way
You've made me whole.
Eu que me gabava de ir a velórios e conseguir não ver o morto, desta vez quase que consegui o mesmo, não fosse um primo alto que estava à minha frente ter-se desviado e proporcionado um campo de visão mais nítido do que eu gostaria. Claro que não foi fácil lidar com o que vi mas surpreendentemente, vi retratada uma serenidade que talvez em vida não possa ser alcançável.
Recordo que a última vez que vi o pai do L. (10 dias antes) lhe ter dito: Nunca vi o teu pai tão bem como hoje! - é esta a imagem que quero que seja a última.
Desde pequena que penso e tento imaginar a minha própria morte mas mais mortal será perder um de vós.

04 outubro, 2010

Quatro olhos e uma só lágrima

Os mesmos sentimentos,
Os mesmos pensamentos,
A mesma intensidade,
A mesma expressão ...
... e um mesmo amor!

Suave e leve como uma folha de papel com uma vida por ser escrita

Porque num hospital não acontecem só coisas más, hoje fui visitar uma mãe e a sua segunda filha recém-nascida. Depois de um aborto espontâneo e de passar os últimos 6 meses de gestação em repouso absoluto, a magia aconteceu e a bebé nasceu no dia que a médica tinha agendado como o ideal.
Foi tão bom estar com uma bebé com menos de 24 horas calmamente ao meu colo (espirrou!). Depois da experiência com o meu sobrinho, fiquei despachada e com muito à vontade nestes cuidados e tarefas (dispenso o biberão por razões conhecidas).
Fica uma paz e um acreditar sem fim que um
ser tão pequenino nos tenta ensinar.

02 outubro, 2010

As 32 horas

Esta semana apanhei um dos maiores sustos da minha vida, em que me vi numa posição de impotência, me senti limitada e com uma falta de controlo quase intoleráveis. Para ajudar a isto, a minha fonte mor e ultra-eficaz estava ausente do país.
Fiz uma ginástica mental fléxivel e dinâmica, com neurónios a fazerem saltos em altura e outros em comprimento para encontrarem uma forma de conseguir penetrar no SO de neurologia de um hospital onde nunca tinha estado e onde não conheço nenhum profissional de lá. Devido à falta de rede móvel, a informação transmitida para o exterior era condicionada e para além disso senti que a minha simpática intermediária não estaria a receber a informação na sua totalidade. Esta minha desconfiança, por sinal certa, fez com que eu encontrasse uma solução e consegui que um médico que eu não conheço fosse ao SO e me transmitisse tudo o que se estava a passar - foi designado por eles como "o teu espião". Para mim esse "espião" foi crucial e fiquei a saber que para ele, a sua presença foi reconfortante, tendo me sentido mais perto de si.
Apesar da exclusão de uma das hipóteses de diagnóstico ter sido favorável, restava uma que a existir seria consideravelmente grave.
Nestas alturas adopto uma postura rigida e contundente, onde exploro todos os cenários possíveis se os exames confirmarem a suspeita, de modo a delinear as hipóteses de intervenção, ganhando maior controlo e segurança. Os médicos, geralmente, ficam muito atrapalhados por esta minha confrontação e quase que se enrolam neles próprios, evitando a clareza e objectividade (que infelizmente poucos doentes pedem, sabem pedir ou querem pedir). Esse seu comportamente só reforça que o que interrogo tem viabilidade e dá-me outra forma de controlo.
Mal me foi autorizada a ida à visita, curiosamente enquanto lá estava, apareceu a médica a dar alta para uma recuperação que ainda não se percebeu que contornos irá ter mas pelos menos vejo-o e sinto-o.
Ninguém em meu redor percebeu o que se estava a passar, para além da família directa que demonstrou uma agradável preocupação para com ele. Uma amiga minha ontem dizia-me: Como é que aguentaste fazer tudo ao mesmo tempo?
- E haveria alternativa de não o fazer?
Depois de duas semanas a fazer um curso conjugado com o trabalho, um exame com mais matéria do que a que dei num ano inteiro de faculdade, uma decisão de tribunal injusta e de uma doença aguda inesperada do L. com internamento ... a exaustão era tanta que eu não queria parar e deixar-me levar pelo cansaço. Parecia-me mais fácil continuar naquela intensidade e ritmo acelerado do que me deixar socumbir pela exaustão.
Ao final da tarde vinha para casa e só pensava: Agora só quero um banho quente porque estou gelada internamente.
Mal entro no elevador, encontro um papel meio rasgado, rasurado e escrito à mão: Não há água nem gás. Amanhã devem vir arranjar.
Sem gás vivo razoavelmente mas sem água não. Como foi de repente não tinha feito reservas de água para além da que tenho guardada para beber se necessário.
Palm Springs Real Estate