Quando se fala em morte, pensamos na pessoa que faleceu procurando saber as circunstâncias (de forma mais ou menos mórbida), logo depois
na família próxima, na mais distante, nos amigos, em quem já perdemos e os audazes na sua própria finitude.
Pouco ou nada se ouve falar em relação ao processo que uma namorada (que na teoria nem família é) tem que passar quando morre um dos progenitores do namorado; sobretudo quando ela tem os seus vivos e fica aterrorizada com a ideia de um dia ter que passar pelo mesmo e que passa a ficar incomodada quando diz "O meu pai hoje disse/fez ...".
Apesar de não saber nem querer imaginar o que o namorado poderá estar a sentir, há uma necessidade imperial de estar presente para tentar compreender, assumindo o compromisso de estar disponível para o ouvir.
A parte inicial pode parecer crua ou egoísta mas resulta da tentativa de testar/reforçar a segurança (possível = a existente) da presença dos seus pais na sua vida. Penso que se trata de uma resposta condicionada à inerência de se ser humano (segundo Maslow e a sua célebre Teoria das Necessidades, temos na base da hierarquia as necessidades fisiológicas, seguidas pela necessidade de segurança).
Sem questionar (o agir impera), a prioridade é ajudar o outro a identificar, reconhecer e gerir os seus sentimentos numa contenção silênciosa e infelizmente finita/limitada (faço tão pouco ... fiz tão pouco). Paralelamente, nas viagens de carro para casa ou na tentativa de adormecer, é necessário encontrar uma forma que assegure - O que fazer aos sentimentos que imergem em mim e emergem de mim - enquanto me sinto diluída num marasmo de emoções ... os teus, os vossos (família em luto), os nossos, os meus, os hipotéticos meus e os meus antecipatórios.
O dele partiu e o que eu posso fazer com os meus ...? São interrogações ou reticências? Num instante, tão rápido quanto a morte súbita, as exclamações, certezas, determinações, garantias, ficaram reduzidas a cinzas que se espalham de forma aleatória e com um andamento do tipo prestissimo.
Nesta minha vida de um tempo sem fim, saltei do passado para o futuro e recorro a uma parte da letra de uma das músicas - Unusual Way (soundtrack do filme Nine) mais tocadas no meu carro nos últimos meses que já me fazia lembrar o meu pai (já estive para a postar anteriormente) e que agora garantidamente assumo que é ele que é recordado. E é por ele que já chorava quando a ouvia.
In a very unusual way,
I want to cry.
Something inside me goes weak,
Something inside me surrenders,
And you're the reason why,
You're the reason why.
You don't know what you do to me.
You don't have a clue.
You can't tell what is like to be me
Looking at you.
It scares me so that I can hardly speak.
In a very unusual way,
I owe what I am to you.
Though at times
It appears I won't stay,
I never go.
Special to me in my life,
Since the first day that I met you.
How could I ever forget you.
Once you had touch my soul.
In a very unusual way
You've made me whole.
Eu que me gabava de ir a velórios e conseguir não ver o morto, desta vez quase que consegui o mesmo, não fosse um primo alto que estava à minha frente ter-se desviado e proporcionado um campo de visão mais nítido do que eu gostaria. Claro que não foi fácil lidar com o que vi mas surpreendentemente, vi retratada uma serenidade que talvez em vida não possa ser alcançável.
Recordo que a última vez que vi o pai do L. (10 dias antes) lhe ter dito: Nunca vi o teu pai tão bem como hoje! - é esta a imagem que quero que seja a última.
Desde pequena que penso e tento imaginar a minha própria morte mas mais mortal será perder um de vós.